
O voo até à Lua não é tão longo, sendo que as distâncias maiores que tenho de percorrer estão dentro de mim mesma. Aguardo o ano novo feliz, o primeiro de tantos anos passados e futuros.
Vou acalmando um coração conhecedor dos caminhos de fogo e de neve e que vagueia no céu sozinho como uma estrela distante. Dono de um desejo que é oração, vestindo calorosamente amor e surpresa. Entre lágrimas e sorrisos vai navegando e alguns raios de sol conseguem exaltar o seu ânimo.
Tivesse eu a coragem das gaivotas.
Essas que pairam nos céus e nos mares da saudade e depois, com coragem no peito vão beber, ao outro lado da nostalgia.
Talvez a minha sina percorra os lugares mais recônditos e indecifráveis da ventura. Talvez o maior delito da alegria seja o sorriso prometedor, mas das dúvidas nascem certezas e convicções. A ternura é lei. A paz da alma é segredo e a semente da flor é a vida do mellisuga.
Por isso, das estradas que surgirem, resta escolher, sem enveredar ao acaso. Sentar e esperar ao som da respiração profunda, que me conferiu existência, no dia em que vim ao mundo.
Quieta, em silêncio ouço melhor as minhas frases. De dia sou lua nova, inspiro-me na terra e expiro momentos. À noite, quarto-crescente, semeio repouso. Cheia de tantas direcções opostas, luto a minguar em todas as estações.
No branco do corpo, busco quiçá, a carícia da luz ardente, a magnitude das marés, o dom de tenuíssima e calmamente, ser invisível para começar uma nova viagem, que renovo a cada ano de completar idade.
ilustração de renato Ribas